quinta-feira, 2 de abril de 2015

A Música Cristã em Fases

Embora eu tenha apenas 19 anos de vida cristã, meu contato com a música de raiz evangélica é bem anterior a minha conversão, em 1996. Há algum tempo que venho acompanhando a cena cristã nacional e me permito fazer uma análise do desenvolvimento desta "arte" a partir de observações pessoais que podem não refletir a opinião da maioria mas que considero interessante compartilhar uma vez que existe uma lógica coerente no meu raciocínio. Devo salientar que estas observações tem como contraponto comparativo uma cultura musical forjada desde a infância com base na MPB, Música Erudita e o universo da música rock em suas mais variadas vertentes. Dito isto vamos lá!

Para uma melhor compreensão, proponho uma divisão da história da música cristã evangélica em quatro fases a saber: 
  • Primórdios - Anterior a década de 50
  • Primeiro Amor - Da década de 50 a década de 80
  • Profissionalização - A partir da década de 80
  • Sofisticação - A partir do novo milênio

Primórdios

De acordo com o colecionador e pesquisador Salvador de Souza, em seu livro História da Música Evangélica no Brasil, o primeiro registro fonográfico de uma música evangélica por essas terras foi realizado em São Paulo, por José Celestino de Aguiar e pelo Rev. Belarmino Ferraz, no ano de 1901, em um disco de cera. Existem  ainda registros da Igreja Evangélica Fluminense em 1916, 1936, 1944, 45 e 46 em vinil de 78 rpm. Existem outros registros mas é tudo muito rudimentar.

Primeiro Amor

Esta segunda fase, que eu optei por chamar de primeiro amor, começa na década de 50 e se caracteriza por canções apaixonadas. São mensagens de salvação e conversão mas a qualidade técnica é bastante fraca. Lembro-me das produções que eu escutava na casa dos meus parentes nos anos 70. Aquela guitarra estaladinha, orgão Saema e bateria só para manter o ritmo. Mas é o início de uma tomada mais comercial. Até onde se sabe, o primeiro LP evangélico foi gravado em 1955 por Luiz de Carvalho.


Após isso começa uma explosão de cantores, ritmos e tem início a formação de um mercado de música cristã com o surgimento de grandes nomes do meio. Nos anos 60 vemos a introdução de ritmos populares e de instrumentos antes demonizados. No final da década de 60 a Missão Vencedores Por Cristo inicia uma revolução no evangelismo com base na música lançando em 1968 seu primeiro trabalho.

Profissionalização

A década de 80 marca o início de uma preocupação cada vez maior com a profissionalização e a qualidade técnica das gravações. Também é na década de 80 que o termo gospel começa ganhar força através da gravadora Gospel Records, da igreja Renascer em Cristo. Trata-se de uma década que marca o boom da Música Cristã Brasileira.

Se por um lado a música cristã ganha terreno por outro a mercantilização começa a produzir obras de conteúdo teológico duvidoso. Outro ponto negativo é que a música cristã começou a seguir tendências da moda. Esta corrida pela parada de sucessos acabou por criar uma indústria de produção em massa.

Houve também uma importação cada vez maior de modelos estrangeiros, como Hillsong, ou seja: a música ganhou em produtividade e técnica mas perdeu em qualidade musical, cultural e em conteúdo.

Sofisticação

O início do novo milênio trouxe consigo uma nova fase na música cristã. Eu costumo chamar de fase da sofisticação, ou a fase da arte. Se de um lado temos uma industria muito forte baseada em lucros produzindo muita coisa de qualidade duvidosa, do outro lado temos uma cena cristã independente e mais underground crescendo e se fortalecendo. A música cristã brasileira começa a produzir muita coisa boa e inovadora, que foge aos padrões estabelecidos pela industria fonográfica gospel. Um bom exemplo disso é o CD Reencontro (foto), do artista Thiago Holanda. Jazz da melhor qualidade com participações pra lá de especiais.

Capa do Álbum Reencontro de Thiago Holanda
E não é só isso, muitas bandas e artistas em diversos segmentos, tem surgido neste novo cenário da música cristã ou feita por cristãos com um diferencial criativo nunca visto antes. Do Pop ao Rock, do Jazz a MPB passando pela Bossa Nova, Reggae e música experimental como é o caso dos cariocas do Ruah Jah com o fantástico Rádio Jah (foto).

Capa do álbum Radio Jah Vol.1 do Ruah Jah
No lado do mainstream temos uma nova safra de artistas como: Marcela Taís, Lorena Chaves, Fábio Sampaio e artistas que se renovaram e melhoraram muito, como é o caso da banda Resgate, entre outros. Já a cena underground vem num crescendo tanto na área do louvor com artistas independentes como: Crombie, Marco Telles como na área mais rock com cenas em todo Brasil, como é o caso do selo Cristo Suburbano, criado para facilitar a distribuição de material de bandas independentes.

Aliás, para quem acha que a cena underground é mais uma brincadeira de moleques, cito dois casos. A banda paulista Antidemon que atualmente é contratada da Rowe Productions, gravadora do renomado Mortification e a Living Fire que faz parte do selo californiano Thumper Punk Records.

Capa do Álbum da Living Fire
Lógico que este artigo não esgota, de forma alguma, o assunto, mas nos dá um alívio de saber que mesmo em meio a tanto lixo "gospel" existe uma música cristã honesta e de qualidade sendo feita por aí.





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